Ele queria apenas pintar! Pintar, sempre! Independentemente da temática! Assim, o artista plástico Solano Finardi explicou os seus planos em certa ocasião. Os quase 70 anos dedicados à pintura não permitem que se atribua apenas um rótulo ao seu trabalho.
Solano transitou entre os vários gêneros da pintura, passando do surrealismo abstrato à arte figurativa. Ora em tons suaves, ora bastante coloridos, os seus quadros registram o corpo humano, a natureza-morta, motivos religiosos, autorretratos e inúmeros retratos de celebridades nacionais e internacionais, entre tantos temas.
Solano nasceu em 27 de dezembro de 1938, em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, filho de Genny Rodrigues Finardi e Juvenil Thomaz Finardi. Ainda garoto, desenvolveu o gosto pela arte por influência de sua mãe, Genny, que também pintava. As primeiras pinceladas surgiram de forma precoce, aos 8 anos de idade. Em meados dos anos de 1950, foi aluno do Instituto Educacional Metodista de Passo Fundo, cursando o Científico, o equivalente ao ensino médio atual. Em sua cidade natal, frequentou ainda a Faculdade de Belas Artes, mas acabou não concluindo o curso para fazer carreira no centro do país, no início dos anos de 1960.
Apesar da ampla diversidade de sua produção, o fascínio de Solano estava em pintar retratos, uma das únicas constâncias em sua carreira. E os olhos dos retratados sempre ganhavam uma dimensão importante em suas obras. O fascínio do pintor pelos retratos decorria de seu fascínio pelo ser humano, mas a empreitada sempre trazia junto um grande desafio, já que Solano considerava o retrato o alvo de maior crítica. “O retrato é um trabalho feito a dois, de quem posa e de quem pinta”, dizia.
Cada retrato demandava, em média, dez horas de interação com o seu modelo. Entre os inúmeros retratados estão nomes como os do escritor e dramaturgo Nelson Rodrigues, da escritora Clarice Lispector, das atrizes Elke Maravilha e Tônia Carrero, do poeta paulista Guilherme de Almeida, da cantora Maysa Matarazzo, do príncipe Juan de Bourbon e da alemã Veruschka, uma das principais modelos do mundo da moda nas décadas de 1960/1970. Solano também apreciava os autorretratos, tendo produzido mais de uma dezena deles.
Em 1963, Solano já estava expondo no Salão Paulista de Belas Artes, um importante espaço cultural, que ajudou a revelar e fixar grandes nomes da arte brasileira, como Tarsila do Amaral, Guignard, Victor Brecheret, Anita Malfatti e Alfredo Volpi. Um ano depois, Solano conquistou a sua primeira exposição individual, no João Sebastião Bar, onde apresentou 38 retratos de paulistanos expressivos na época. O local de estreia era considerado o templo da Bossa Nova em São Paulo, frequentado por expoentes da música brasileira, como Chico Buarque, João Gilberto, Toquinho, Arthur Moreira Lima, Hermeto Pascoal e Geraldo Vandré. A clientela do João Sebastião Bar também era exclusiva, com mesas disputadas até por atores hollywoodianos, como Kirk Douglas.
Em meados da década de 1960, Solano galgou espaços em importantes exposições coletivas no centro do país, como a dos “Doze Pintores Surrealistas”, da Galeria Edifício Itália, em São Paulo, e da “Quatro Facetas do Surrealismo”, na Piccola Galleria, no Rio de Janeiro. O final da década de 1960 culminou com a sua participação no Salão Nacional de Arte Moderna, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e o recebimento de uma menção honrosa, na X Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Entre quase 700 artistas, de 57 países, e mais de 2 500 obras, a pintura de Solano se destacou na Sala de Artes Fantásticas, da X Bienal, sendo classificada como “surrealismo erótico visceral”.
Um importante crítico de arte na época, o russo Marc Berkowitz, definiu o novo artista que despontava. “Solano surgiu espetacularmente na X Bienal, dominando a técnica do óleo. Ele pinta sem subterfúgios, nem truques, causando impacto com a violência das cores, o sensualismo visceral das formas abstratas, o clima dos sentidos em explosão. Uma pintura pessoal, forte, de conteúdo violento, a caminho da síntese e do despojamento.” Foi em 1969, também, que Solano foi citado na Arts Magazine, uma importante revista sobre artes, de Nova Iorque.
Em 1971, Solano conquistou outra importante premiação, no concurso “O Sorriso de Beethoven”, que lhe proporcionou uma viagem a Bonn, na Alemanha, berço do compositor famoso pelas sinfonias. Lá, pode ofertar o seu quadro ao Museu Beethoven-Haus, espaço que reúne um dos mais importantes acervos sobre o compositor alemão.
Já de volta ao seu estado natal, no final dos anos 1970, Solano fixou residência na capital gaúcha, onde participou de exposições coletivas e individuais e produziu retratos de importantes membros da sociedade porto-alegrense. Em 1980, foi convidado a ministrar um curso de pintura, na Faculdade de Belas Artes, da Universidade de Passo Fundo, com duração de seis meses. O retorno às suas origens deu ao pintor a oportunidade de fazer importantes registros de seus conterrâneos.
A mudança de cidades era uma constância na vida do artista gaúcho, que depois de morar em São Paulo, Rio de Janeiro e retornar ao seu estado de origem, se estabeleceu no litoral catarinense, em Balneário Camboriú, na década de 1990. Em cada cidade, retratava os representantes da sociedade local. Ainda em Santa Catarina, em 2004, Solano recebeu o título de Acadêmico Fundador, da Academia Catarinense de Letras e Artes, na capital Florianópolis.
Em uma das poucas entrevistas que concedeu ao longo de sua vida, Solano afirmou que, inconscientemente, ou não, estava permanentemente reinterpretando a sua obra. E citou alguns dos artistas que admirava, como o irlandês Francis Bacon, pela linguagem técnica. Apreciava ainda o realismo de Candido Portinari; o lirismo de Guignard; o sensualismo de Di Cavalcanti e a técnica do pernambucano Reynaldo Fonseca. Outros artistas destacados por Solano foram ainda os baianos Luiz Jasmin e Carlos Bastos, além do retratista paraense Albery Seixas da Cunha e do paulista Darcy Penteado.
Além da pintura, Solano também se dedicou ao ensino -- entre os pupilos ilustres estiveram o humorista cearense Chico Anysio e o artista plástico gaúcho Paulo de Siqueira. A música clássica e o jazz também se fizeram presentes na vida do pintor. Era ao som de cantoras líricas, como a greco-americana Maria Callas e a peruana Yma Sumac, que Solano gostava de pintar. Ou, ainda, das cantoras de jazz norte-americanas Nina Simone e Eartha Kitt.
Com uma vida bastante reservada, Solano encontrou em Mina (Horminia Borges Soares) um dos grandes suportes para o desenvolvimento de sua arte. Depois da passagem por Santa Catarina, Solano voltou a residir, em 2010, na capital gaúcha, Porto Alegre, onde permaneceu até o seu falecimento, em 2 de maio de 2019, aos 80 anos.